Um caminho pra chamar de seu

caminho-mcleod

A gente sabe que a vida é agora, que é curta, que passa rápido. A gente sabe disso. Mas a gente esquece. Não de forma proposital, premeditada, mas na maioria das vezes a gente desconsidera este fato. Ignora! Esquecemos de levar em consideração a brevidade desta nossa vida (desta porque alguns, como eu, acreditam que tivemos e teremos outras vidas). E às vezes, quando paramos para refletir sobre isso de forma sincera e profunda, acabamos por levar um susto.

Cada um vive do jeito que bem entende. Claro. Mas se formos observar vemos que alguns levam a vida pensando que ela vai acabar amanhã, e que isso justifica escolhas impulsivas, egoístas, imediatistas, afinal, eu preciso aproveitar, vai que eu morro amanhã? Outros vivem como se o tempo fosse eterno, que não há porque decidir ou tomar atitudes práticas agora, pois sempre temos amanhã, somos tão jovens. E ainda existem aqueles que pensam tudo de forma milimétrica hoje, fazem tudo que podem agora, vivem enjaulados buscando atingir metas e mais metas agora, porque lá na frente eles vão poder desfrutar o que batalharam no hoje. Uns esquecem o hoje, uns esquecem o amanhã, uns não pensam em nada disso.

Não podemos viver em função do questionar-se. Não há vida “moderna” que de conta de passar todos os dias pensando no sentido da vida. Claro. Mas em alguns momentos, ao menos, vejo que temos que parar e fazer esta pergunta. Esta pergunta que é difícil de fazer e umas das mais difíceis de se responder: O QUE EU ESTOU FAZENDO DA MINHA VIDA? Para você poder fazer esta pergunta, primeiro, você tem que, verdadeiramente e sinceramente, ter consciência de que você é o único responsável pela sua vida. Pelo menos é assim que eu vejo! E só esta parte eu já considero bem complicada. Não é fácil assumir sozinho tudo isso que olhamos atrás de nós. Mas é preciso. Depois é olhar para si mesmo e observar se o que você viveu até então está te deixando feliz, se você acha que deve continuar ou se deve mudar alguma (ou muita coisa) sobre você mesmo, para então seguir adiante mais em paz e, consequentemente, mais feliz. Responder esta pergunta não é um passo, é um caminho que, vejo eu, devemos trilhar.

Temos que ter esta coragem e esta abertura com nós mesmos. Não é possível que vamos seguir uma vida toda sem entender o que estamos fazendo dela, sem questionar a nós mesmos se é isso mesmo que queremos e devemos fazer. Na verdade é possível levar uma vida toda assim, mas é triste fazer isso, ignorar-se. Conversando com a gente mesmo, temos a chance de descobrir coisas incríveis que ainda podemos e queremos fazer, e nem imaginávamos! Temos a chance de encarar coisas em nós mesmos que nem imaginávamos que nos faziam infeliz, e assim ficar triste com algumas atitudes e escolhas. Mas descobrindo e entendendo isso, temos a chance de nos perdoar e de seguir adiante por um novo caminho. Uns estão tão apegados às conquistas materiais, com seu status, com sua carreira, que esquecem que a vida pode ser mais feliz quando se tem compaixão e empatia com as outras pessoas. Outros estão tão desapegados e praticando tamanha caridade que esquecem que é preciso cuidar-se materialmente ao menos um pouquinho. Acredito que há um ponto de equilíbrio para cada um, e que a vida pode se tornar muito melhor quando conseguimos nos manter o mais perto possível deste eixo.

Às vezes a gente esquece que tem o direito (e por que não o dever) de mudar quando for preciso. É possível desperdiçar a vida vivendo roboticamente, superficialmente, a esmo. Claro que é. Mas isso deve partir o coração profundamente quando chegar a hora de dizer adeus.

Desligando-se

É aos poucos que as coisas vão fazendo sentido. Não adianta querer entender e (pior!) ter o controle de tudo. É frustração garantida e digo isso cheia de razão. Razão aliás que foi sempre minha fiel escudeira, frente a qualquer batalha. Depois de descabelar-se, rasgar-se, remoer-se, emocionar-se vezes profundamente, ali estava ela me esperando, acariciando minha cabeça e me ajudando a encontrar a solução. Foi de braços dados com ela que cheguei onde cheguei, que estou onde estou. Não renego. Não recrimino. De grande parte me orgulho muito, inclusive! Apenas acho que algumas vezes temos que parar e pensar se o que nos trouxe até aqui, é o que vai nos levar adiante.

Não me fiz esta pergunta diretamente. Não teria tamanha audácia, sou engenheira, oras bolas! Claro que não sentei sozinha para refletir e escutar meu coração, conversar com ele de forma tranquila, para juntos chegarmos a conclusão de que eu precisava desacelerar. Isso aconteceu da forma que aconteceu muita coisa na minha vida, aos socos. Apesar de ser muito expressiva e (acho eu!) convincente no mundo de fora, do lado de dentro estou mais para aquela criança tímida e calada, que senta no canto e tem vergonha de fazer perguntas na sala de aula. A sala de aula, neste caso, é o meu coração, meu interior, ou como quer que seja chamado o nosso eu verdadeiro.

A rotina “cheia de desafios”, que passou para “está tudo indo, o stress de sempre”, para duvidosa, um dia começou a machucar. E um dia destes, que eu sei mais ou menos qual foi, a ideia de parar nasceu em mim. Até que um dia ela veio em forma de “páre e faça uma viagem longa e diferente, que você nunca pensou em fazer. Isso vai te fazer ver outro mundo”, mas poderia ter vindo vestindo qualquer outra roupa. E isso foi tão marcante que só o fato de eu ter tido esta ideia (esta “luz”) já me tornou uma pessoa mais feliz. Achava brilhante eu ter pensado numa coisa destas! Até que estes dias descobri que eu não pensei nisso. Eu senti. A aluna tímida tinha me mostrado que também podia contribuir e que agora ia falar! Não posso dizer que já somos melhores amigas, claro que não, pois eu sou uma engenheira (oras bolas novamente!). Mas eu ter me desligado da vida que eu vinha vivendo está me dando muito mais chance de ouvi-la.

Meu período sabático começou há exatos 2 dias e já sinto algumas mudanças (além de um pouco de medo, das contas, do futuro, do retorno!). Mas mudar a rotina é um excelente meio de perceber o quão dependente você está “das coisas” que te cercam: horários, tarefas, reclamações, cargo, e-mail. Desligar-se do mundo como você o conhece te abre os olhos para o seu mundo – aquele que você não olha nunca porque está atrasado para alguma coisa. É preciso coragem para deixar de olhar para fora e arriscar olhar para dentro. Não está nem será fácil, mas tudo bem até agora. Afinal, sempre gostei de um desafio.

Este texto do OSHO li hoje e foi incrível, pois coloca de forma perfeita tudo o que eu não chegaria nem perto de conseguir dizer sobre a decisão de tirar um período sabático:

Desligar-se é o segredo da vida. Desligar-se é o segredo da religiosidade. Desligar-se é o maior segredo. Quando você se desliga, se entrega, muitas coisas, milhões de coisas, começam a acontecer. Elas já estavam acontecendo, mas você não tinha consciência disso. Não podia ter; estava envolvido com outras coisas, estava ocupado.
Os pássaros continuam cantando. As árvores continuam florescendo. Os rios continuam fluindo (..). Mas você está tão absorto, tão ocupado, tão fechado, sem nem mesmo uma janela aberta, sem receber nenhuma ventilação.
Nenhum raio de sol consegue penetrar você, nenhuma brisa passa por você; você é tão sólido, tão fechado. Você é uma mônada. Mônada significa algo sem nenhuma janela, sem abertura, em que todas as possibilidades de abertura estão fechadas. Como você pode ser feliz? Tão fechado assim, como pode participar de todos os mistérios a sua volta? Você terá que sair. Terá que abandonar essa clausura, essa prisão.
Para onde você está indo? E acha que em algum lugar, no futuro, há algum alvo a ser alcançado? A vida já está aqui! Por que esperar pelo futuro? Por que adiá-la para o futuro? O adiamento é suicida. A vida é lenta; é por isso que você não pode senti-lá. Ela é muito lenta e você é insensível (..). Você se mata aos poucos. Você vive adiando – e vai perdendo a vida que está aqui e agora.” OSHO – O homem que amava as gaivotas