15 dias em Rishikesh

15 dias em Rishikesh foram suficientes para marcar não só minha experiência na India, mas minha vida. Não sei dizer ao certo se me apaixonei pela cidade, mas sei que a experiência que lá vivi ganhou um bom espaço no meu coração. No ashram no qual me hospedei, participei de alguns encontros com o guru, que insistentemente usava a frase “welcome home” para saudar as pessoas. Pode soar estranho ou até pretensioso, mas ao menos para mim este guru acertou em cheio: eu realmente me senti em casa.

A região na qual o Parmarth (ashram) se encontra é de certa forma tranquila. Na verdade estive apenas uma vez no “centro” da cidade, assim que desembarguei do Brasil e, pra mim, foi suficiente. Difícil para alguém recém chegado do “ocidente” cair de amores por uma região cheia, barulhenta e, não tenho como evitar dizer, suja! Sujeira é uma questão a parte aqui na Índia. Não tem como escapar. Acaba-se acostumando a encontrar a beleza por trás, ao lado, em cima ou dentro da sujeira. É pegar ou largar – e se largar, sair perdendo com certeza! Se existe aquela frase que diz “Índia, ame ou odeie”, sem nenhuma dúvida já posso dizer que sou mais uma na multidão que cai de amores por este país.

Hospedar-se neste ashram foi a melhor escolha que, sem querer – como quase tudo que envolve esta viagem! – eu poderia ter feito. Um jeito drástico e sim, sutil, de me adaptar a esta cultura tão distinta. Drástico porque você, de uma hora para outra, entra numa rotina de madrugar, fazer aulas de yoga, ouvir e aprender mantras em sânscrito, comer em silêncio (ou quase isso) e participar de celebrações que, por mais yogi, hippie, alternativo que se acredite ser, você não estará acostumado! É uma ruptura muito grande com o nosso inegável “american way of life”. Além disso, o menu inclui pratos como arroz, batata, legumes sim, no café da manhã – e nem sempre eles estão preocupados com a aparência da comida. Vamos lá, agora sendo bem sincera: eles não estão nem aí pra isso! Então você acaba tendo que se adaptar – arregalando os olhos ou não. Por outro lado, o lado sutil da coisa, é que de alguma forma você é posto tão perto da cultura hindu que acaba ficando muito leve (e bonito) acompanhar e aprender. E sobretudo respeitar! Quantos visitantes da própria India vinham diariamente apenas ver e fotografar o ashram e os deuses hindus que enfeitavam seus jardins! Sem contar os estrangeiros. Sempre tinha gente indo e vindo – e posando ao lado de alguma estátua. Sem falar das cerimônias diárias de celebração ao rio Ganges durante o por do sol – difícil descrever a energia cativante destes momentos! Outra sutileza nesta adaptação via ashram é que por mais “exóticos” que fossem os pratos, eles são bem mais leves e menos “picantes” que a comida do lado de fora. Mesmo para mim, que nos primeiros dias fiquei meio apavorada com o gosto estranho e a aparência duvidosa da comida, em pouco tempo estava literalmente pedindo bis! Hoje, em Mcleod Ganj, tenho a opção de comer em restaurantes a minha escolha todo dia, mas não me sinto nem de perto tão bem como me sentia com a comida do ashram! Realmente a comida era leve e apropriada para uma imersão na vida de yoga e espiritualidade. Tudo estava relacionado e agora ficou ainda mais claro! Confesso: esta conclusão faz meu coração mais uma vez “bater feliz” por Rishikesh. Lá eu descobri a maravilha que é fazer uma boa aula de yoga. Lá eu descobri a beleza de aprender com quem vive a yoga de uma forma integral, sincera e espiritual. Lá eu finalmente entendi o que nenhuma das várias aulas experimentais de yoga puderam me mostrar. E admito que não há nenhum dia até agora que não sinta falta daquelas aulas.

A beleza do local e as pessoas que lá conheci são os outros dois motivos que me deixam tremendamente grata! Rishi significa yogis. Rishikesh, então, a terra dos yogis, é de uma beleza difícil de por em palavras. É preciso abstrair um pouco a sujeira, as vacas (e o cheiro de cocô e xixi de vaca) e os macacos (ladrõeszinhos profissionais rs). Fazendo isso o que se vê é pura beleza e energia boa! O rio Ganges divide a cidade ao meio com sua beleza e grandeza de tirarem o fôlego. Nada lembra o Ganges que eu estava acostumada a ver na tv, provavelmente em Varanasi. Nada! Demorei a tomar coragem para tocá-lo, mesmo vendo que era limpo e com muitos peixes (que um dia, inclusive, parei pra jogar comida e vê-los virem, aos montes, buscar). Tudo em virtude do pânico que eu tinha lembrando das cenas de sujeira, podridão e morte que são transmitidos do Ganges mundo a fora. Claro que ele é assim, infelizmente!, mas não em Rishikesh, não no pé dos Himalaias. Depois de assimilar isso, molhei mesmo os pés, as mãos, e torci com todo meu coração para que a Mãe Ganga (como é conhecido na Índia) me abençoasse muito! E no fundo do coração me sinto muito abençoada – o fato de estar aqui vivendo tudo isso é o que?

Estes dias eu li um blog de viagem que enaltecia as pessoas que se conhece durante uma viagem assim, como esta que estou fazendo. E dizia que no final de uma viagem destas o ganho estava baseado em: “tudo é sobre pessoas”. Não sei se concordo. Ando valorizando demais as experiências que tenho adquirido quando estou sozinha. Mas não nego que conhecer pessoas e trocar experiências é, sem sombra de dúvidas, maravilhoso. Afinal você está viajando sozinho e não combinou nada com ninguém. Pessoas vão surgindo. Indo e vindo. Ninguém vem pra ficar muito tempo ao seu lado. Todos estão buscando algo diferente, e isso é que é fantástico de se perceber! Faz você valorizar o encontro, o aprendizado, a ajuda, a companhia, a risada. E em Rishikesh eu encontrei pessoas especiais. Pessoas tão diferentes umas das outras. E de cada uma tirei algo para levar comigo ou para me fazer refletir. Em Rishikesh encontrei pessoas que mesmo me conhecendo há uma semana fizeram festa de aniversário surpresa com direito a presentinhos e bolo com meu nome. Em Rishikesh eu encontrei pessoas que admirei logo de cara (e estou na torcida para que tenham uma viagem maravilhosa). Em Rishikesh dei ainda mais valor para a força que estar em boa companhia pode ter. Percebi o quanto a energia do local, das pessoas e do encontro pesam (ou aliviam!) a vida. O que mais posso falar, senão repetir que guru estava certíssimo: em Rishikesh eu me senti em casa.

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Correntes

A difícil arte de ser você mesmo. De não ser arrastado pelo cotidiano, pela vida dos outros, pelo costume, pelo apego, medo, dúvidas. A difícil arte de não apenas saber a direção, o que já é muitas vezes complicado, mas manter-se no caminho. No seu caminho. Não ser arrastado no embalo da manada. Não se tratando, com isso, de se tornar alguém intransigente, inflexível ou não aberto a mudanças, mas de ter consciência de que as mudanças estão de fato ocorrendo. E aceitá-las com alguma convicção. Almejá-las. Deixando-se levar quando sente que deve. Apenas quando encontrar razões para tal.

Esta é uma arte que não domino bem. Por mais estranho que isso possa soar, sobretudo nesta fase da minha vida. Apesar de ser uma grande ruptura você deixar seu emprego, seu lar, entrar em um período sabático e sair de viagem sozinho para o outro lado do mundo, isso nem de longe é sinônimo de você ser dono de si próprio, comandante da sua vida. Porque a vida real esta muito mais ligada ao que de fato ocorre do lado de dentro. E você ser uma pessoa vista como corajosa ou desejosa de mudanças e conhecimento, não significa que você está de fato no seu caminho.

Hospedada em um ashram que fica bem em frente ao rio Ganges, diariamente tenho a oportunidade incrível de observar sua beleza e grandiosidade. Independente do que se acredite em relação a sua divindade, aqui nas montanhas este rio é lindo e forte! Isso no inverno. Dizem que na época das monções aqueles que querem se banhar só entram agarrados em correntes presas em pedras na beira do rio. Ou você certamente será levado pela correnteza. Arrastado rio adentro. Querendo ou não. E cada vez que paro para olhar o Ganges, e me emociono com sua magnitude, penso nesta relação da vida, de conciliar “seu mundo” com o resto do mundo. Sua vida com as outras vidas. Na linha tênue que separa nós mesmos, com nossas convicções, anseios, verdades, do mundo do qual fazemos parte.

Até que ponto conseguimos verdadeiramente saber se estamos seguindo o nosso caminho, ouvindo nossa verdade interior? Como saber que não estamos apenas seguindo o que era esperado de nós, o que nos foi de alguma forma ditado como sendo o caminho a ser seguido? Porque muitas vezes a vida como estamos levando parece mesmo ser a vida que devíamos seguir! Tão mais simples não pensar nisso e seguir apenas remando. Acompanhando a vida que passa, quase como um espectador. Seguindo aqueles que amamos, admiramos, confiamos, ou simplesmente achamos mais fortes e seguros de si – como se pulássemos no barco do outro, porque não sabemos como seguir adiante sozinhos.

É difícil seguir seu próprio caminho. A força do mundo todo nos puxa todo o tempo. Nos leva para um lado e para o outro, e nem percebemos. Como um rio, que as vezes permite que você entre, se banhe e decida se vai ou não se deixar levar pela correnteza. E em outras épocas te arrasta com toda a força, não te dando tempo para molhar os pés nem refletir. Ou você encontra suas “correntes” e se agarra com força e convicção, ou será arrastado com violência, se afogando e machucando pouco a pouco cada parte de você ao longo do caminho.

Estar aqui, observando o Ganges, aprendendo com a vida do outro lado do mundo, não significa que para mim o caminho está claro e que não tenho dúvidas (afinal tenho muitas). Significa que não quero ser espectadora de mim mesma, não quero gastar o tempo precioso desta vida descendo rio abaixo me debatendo, ou ainda (desconfortavelmente) pegando carona no barco de outras pessoas. Quero encontrar minhas correntes para poder me segurar quando não quiser ser levada pela correnteza. Deixar-me ir apenas quando quiser, e não por não fazer ideia do que estou fazendo, nem do que é a real grandeza da vida.