Não pude voltar

Eu deveria estar de malas prontas para pegar meu voo, mas não estou. Hoje eu poderia estar indo de volta para casa. Sentindo aquela mistura de alegria com tristeza típica do final de viagens maravilhosas. Ansiosa por rever minha família e meus amigos. Ser recebida com uma sopa quentinha e uma taça de vinho, depois de 30h em trânsito. Tomar banho sem usar Havaianas num chuveiro com muita agua quente, sem precisar para isso ir na recepção, pedir pra ligar o aquecedor e esperar 30 minutos por um banho de no máximo 10. Dormir em uma cama fofa com os lençóis mais cheirosos do mundo. Aquele cheiro gostoso de casa. Aquele travesseiro que te acompanha há tempos. No dia seguinte poder falar com um monte de gente querida, que sentiu minha falta. Sem saber como explicar tudo que vivi aqui. Sem ideia de por onde começar. Poderia dar aquele pulo no salao minimizar o estrago nas unhas de meses sem manicure sendo ajeitadas por uma mão esquerda pouco habilidosa (a minha, no caso rs). Ouvir e falar português o dia todo, todo dia. Aquele conforto de conversar leve, solto, fluindo de um modo que só a sua língua materna te permite. Eu poderia voltar a abraçar as pessoas, cumprimentar todo mundo do nosso jeito brasileiro de ser. A usar as roupas que sempre usei, ir aos locais que sempre fui, do jeito que sempre fiz.

Mas eu não quis. Não foi possível voltar. Quase como se voltar agora não fosse nem sequer uma opção. Porque pensar em voltar hoje doía, não era a hora. Não dava para deixar agora este caminho inesperado e maravilhoso de aprendizados intensos. Um despertar frequente. Para o novo do lado de fora. Para o novo do lado de dentro! Porque ainda que tenha muita India para ser vista e explorada, é o que esta “India toda” toda vem causando em mim que mais interessa agora. O assimiliar das experiências. O efeito delas em mim. Olhar velhos padrões de pensamentos serem pegos no flagra, questionados e colocados em check. Perceber as emoções que derivam destes pensamentos surgindo, invadindo, tomar conhecimento delas. Observá-las. Muitas vezes me ver sucumbir a elas, como uma vítima indefesa de uma armadilha que eu mesma crio, mas ainda sim procurar aceitar com carinho a imaturidade da minha autoconsciência. Aos poucos presenciar as ainda raras oportunidades em que não repito os velhos “clichês emocionais” de sempre. Que busco a realidade do agora, deixando o passado lá, no lugar dele. Sentir um leve encantamento surgir quando isso acontece. Suavidade em reencontrar uma desconhecida.

Na Índia que estou vivendo agora a vida flui solta, lenta, sem pressa. A lentidão que evitei a vida toda planejando e agindo incessantemente, hoje é a minha paz. Felicidade por ter me dado este presente. Por ter criado esta oportunidade para minha vida, para meu crescimento. Gratidão por ter esta imensa chance de melhorar. De me perder e me achar. A leveza do viver sem pressa, de ter tempo para entender o que acontece aqui dentro. Ver novas formas de sentir os mesmos sentimentos que brotam. Amar um velho desconhecido sem a urgência do encontro, do apego, do medo. Sentir o coração se abrir mais desinteressado. Respeitando, aceitando. Descobrindo a bênção que é aceitar. A paz de aceitar da vida de hoje com o coração sereno. Desacelerado, tranquilo.

Hoje eu poderia estar chegando em casa e recebendo o carinho das pessoas que eu mais amo no mundo, mas estou aqui fazendo a minha mais importante tarefa, tentando aprender e a melhorar a única pessoa do mundo que posso e devo verdadeiramente conhecer – eu mesma.