Hoje

Hoje eu aprendi pela milionésima vez que a gente, lá no fundo, está sempre sozinho. Hoje eu fui humilde e me dei conta que talvez ainda vá repetir esta lição mais mil vezes. E desejei que para cada próxima vez eu esteja mais preparada, e que doa cada vez menos. Hoje eu aprendi que dar conta sozinho da própria vida é uma das maiores bençãos que se pode ter na vida, é o jeito mais rápido de crescer e evoluir, mas que seu preço é altíssimo e não pode ser parcelado em 10x no cartão sem juros. É algo que se paga sempre a vista!

Hoje eu também repeti a lição que o budismo chama de impermanência. A vida segue. A vida não para! Com um pouco de humor, que me é sempre peculiar no meio de tormentas, prefiro chamar esta lição de “camarão que dorme na praia a onde leva”. E hoje eu tomei “um caldo”. Hoje me vi obrigada a revisitar esta lição, que basicamente nos impele a praticar o desapego. A tudo. A todos. E que quase todos nós, mortais, insistimos em não fazer. Sobretudo quando a maré não tá boa, pois é aí que a gente se agarra mais! Hoje eu recordei que sou uma pobre mortal, e me vi agarrada a coisas que já passaram. Hoje eu me senti como uma daquelas pessoas que o Discovery Channel me ensinou como sendo “acumuladores”. Eles juntam quinquilharia. Eu, emoções e sentimentos. No final das contas, #tamojunto. Não conseguimos nem nos mexer dentro “de casa” de tanta coisa acumulada.

Hoje eu fui covarde e acordei com aquela vontade clássica que todo mundo ja sentiu, de sumir. E aqui mostro praqueles que me veem como a pessoa mais afortunada do mundo o lado ruim de ser um viajante: “Você já ta sumida. Vai sumir pra onde, criatura?”. Se eu ainda estivesse em Curitiba, planejaria uma viagem, mesmo que de “faz-de-conta”. Chamaria as amigas pra um boteco. Dirigiria xingando os curitibanos navalhas no trânsito. Pediria colo pra mãe. Iria pro Pilates. Descontaria num chocolate-quente com pão de queijo. Iria ao salão. Compraria “uma blusinha”. Mas eu tô dura, sozinha e na Africa, e já estou longe demais nesta caminhada para repetir estes clichês e viver fugindo. Então tive que rever a lição “engole o choro e chupa esta manga”. Mas antes eu me debati. Claro! Eu chorei. Fiquei de molho. Tive pena de mim. Não saí do quarto. E mandei mensagem de voz chorando para uma daquelas pessoas que são tao amigas que a gente acha que tem paciencia de Jó e não liga de ouvir a gente choramingar sempre a mesma ladainha.

Hoje eu só saí da cama para ir ao banheiro, mas me olhei no espelho e vi que envelheci. E pensei que tenho que voltar a ficar em hostels ou hoteis baratos, nos quais não se tem banheiros branquinhos, claros e com espelhos enormes. Fiquei me olhando e me perguntando quando foi que isso aconteceu. Depois lembrei que nestes últimos 8 meses e meio nunca me deram mais que 28 anos. Respirei aliviada e agradeci ter boa memória, porque se fosse depender exclusivamente da minha boa vontade de hoje estaria chorando (e envelhecendo) até agora.

Hoje eu achei que meu coração era o maior do mundo e me senti injustiçada pela vida. Hoje eu queria bater de frente, levantar o dedo e falar “escuta aqui, estão de marcação comigo ou o que?”. Hoje eu achei que sempre mergulho de cabeça em piscina vazia, ou quase. Hoje eu achei que minhas intenções são sempre genuínas e que o mundo está cheio de gente superficial e desinteressada. E me descabelei revivendo todo um passado acumulado dentro de mim, todas as “injustiças” de uma vida, todas as pedras e-nor-mes que estavam no meu caminho. Depois baixei a bola e vi que nem tudo é tão ruim nem meu coração é sempre tão enorme. Hoje eu me dei conta que o coração de um viajante vive muito mais que um coração de um trabalhador das 8 as 18h. Ao menos comigo é assim. A vida sem hora, sem segunda-feira, sem cartão-ponto abre espaço para uma intensidade absurda no jeito de olhar os mais simples acontecimentos. Tudo é amplificado. Pro bom e pro ruim. É lindo. É perigoso. Hoje eu vi que meu senso de auto-proteção esta desajustado. E para um viajante de 8 meses, vi que demorei muito para perceber isso. Podia ter evitado uns bons tropeços!

Hoje eu me senti perdida. De novo, só que diferente. Aprendi tanto nesta viagem que não consigo me sentir perdida como antes. Hoje eu senti saudades de me perder como antes. Hoje eu senti inveja das pessoas que estão perdidas também, mas que pffff, estão nem aí! Hoje por um momento eu confesso que quis voltar no tempo e desaprender. E chorei. E chorei que nem criança. E cansei. E disse pra mim mesma “esquece e toca este barco”. Uma vez que você viveu uma nova realidade, jamais, jamais você vai voltar a ver o mundo como viu um dia, Maria. E me abracei. E me deparei com uma nova lição que não sei como se chama. A lição veio com uma mistura de pena e de alegria por estar aqui, agora, onde e do jeito que estou. Chorando num quarto de hotel. Senti pena porque me olhei e vi que não vai ser fácil esta caminhada que estou seguindo. Muitas lições dificeis virão para me fazer crescer como pessoa. E sei que repetirei muito do que vivi hoje, só que diferente e numa outra esquina qualquer da vida. Sei que meu coração vai sangrar ainda muitas vezes… Mas depois de muita pena senti alegria e uma gratidão imensa também, porque fui sincera comigo e me perguntei “você quer mesmo fechar seus olhos e não viver, sentir e aprender tudo isso que vem aprendendo?”. E eu gritei bem alto: não!!!! Ri sozinha no meio das lágrimas, escrevi este texto e agora vou é tomar meu banho porque são 4h da tarde e eu ainda não almocei.

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