Alguns fins

Dizer adeus é uma coisa que me custa um monte. Sempre foi assim. Minha memória mais clara me remete a Telêmaco Borba, no auge dos meus 15 anos. Como foi difícil, então adolescente, deixar para trás to-do-o-meu-mun-do! Naquela época foi mesmo o fim do mundo me mudar para Curitiba. Acho que chorei quase um ano de saudade já nem sabia de quem ou do que. Até que no CEFET conheci Led Zeppelin, The Cult, o Hangar Bar e já nem queria voltar para o interior para passar o final de ano lá.  O próximo episódio que me marcou foi a dificuldade absurda de entrar no portão de embarque do aeroporto Afonso Pena para ir morar na Alemanha. Quando dei a última olhada para trás já nem via as pessoas. Tantas lágrimas que não podia enxergar. Chorei daqui até o Galeão. Soluçando. Depois o medo de estar indo a primeira vez para fora do país e chegar em Frankfurt sem falar muito mais que Oi, tudo bem, desculpa e tchau em alemão, me deixou tão alerta que engoli o choro. E tudo lá era tão diferente e complicado e em alemão que não demorou muito, e o meu desespero do adeus foi passando. Além destes, tem aquele tipo de adeus que dói para caramba – então logicamente quase todos meus relacionamentos amorosos passados foram se estendendo muito além do fim. O fim se esgoelando na minha frente, com braços erguidos, pedindo atenção, e eu dando uma de surda e cega. E mesmo depois de declarado o fim, ainda gastava mais um tempinho chorando sobre o leite derramado.

Os fins são difíceis. E também foi difícil quando eu descobri que precisava largar tudo e ir viajar. Mas desta vez sofri tudo antes. Entre eu entender que eu ia largar o emprego, e de fato largá-lo, não demorou 2 meses.  Até hoje me surpreendo com esta rapidez. Mas foram 2 meses de cão e muitas noites de sono pensando numa vida toda de dúvidas e questionamentos. E ainda teve desespero, angústia, depressão e fugas nos mais diversos setores e das mais variadas formas muito antes destes tais 2 meses de cão chegarem. Quando lembro do dia que pedi demissão me vejo anestesiada, quase em choque, mas surpreendentemente logo em seguida fiquei bem. Não fiquei remoendo muito não. Mesmo a engenheira aqui não tendo muita ideia do que e como fazer dali em diante. Acho até que peguei o jeito de viver assim, porque foi assim também que passei este último ano. Vivendo um dia após o outro. Pouquíssimos planos e muita história para contar. Sem sombra de dúvidas o ano mais marcante da minha vida!, mas que também uma hora chegaria ao fim, e chegou.

E este adeus foi de matar. Sem nenhum desespero, mas com o coração pesando uma tonelada, foi como peguei o avião em Bangkok. E antes disso comi trocentos Pad Thai com a cerveja local, e mais mil sanduíches do 7 Eleven, e fiquei de novo pela milésima vez na mesma guesthouse, e caminhei mil vezes pelas mesmas ruas, e andei nos ônibus locais, e fui aos lugares de sempre mas admirei coisas novas, e olhei cada coisa com muito amor, e comprei coisas inúteis, e esqueci de comprar coisas importantes, e fiquei perdida, perdidinha da Silva. E ainda antes passei mais de um mês trabalhando de broker de passagens aéreas, analisando a subida e descida dos preços, nos mais variados trechos e ofertas: e quem disse que eu conseguia comprar? Como é que se comprava a passagem de volta estando na Indonésia? Era um aceitar o fim, não aceitando. Era um querer voltar, sem querer sair da Ásia. Era saber que era chegada hora, e tentar prolongar só mais um pouquinho. Era saber que a Ásia estará lá e uma hora eu posso voltar, mas achar isso um tremendo blablabla. Até que chegou o dia e eu não podia mais enlouquecer. Respirei fundo e aceitei meu não-aceitar. Aceitei meu medo do fim. Aceitei o final de uma história. Aceitei o retorno a um lar talvez desconhecido. Aceitei encarar mais uma mudança. Aceitei viver um próximo ano e a próxima história. E sobretudo aceitei o que este ano espetacular me ensinou: que nada é definitivo enquanto estou viva. Tudo está mudando. E tudo passa. E aceitar é deixar a vida fluir como tem que ser. E que também é preciso saber aceitar que às vezes é duro mesmo aceitar! Me desculpem os mais sensíveis, mas foi foda voltar. Eu vim feliz, mas com saudade do que ia ficando para trás, mais triste que alegre, mais chorando que sorrindo, sem avisar ninguém. Só eu mesma, agradecendo profundamente e imensamente o que ia virando uma parte encantadora da minha história.

A dengue ensina

Primeiro de tudo a dengue me ensinou que ela dói, e dói bastante. Depois dela suponho agora saber o que é ser atropelada por uma jamanta. Duas vezes. Aprendi também que ir de um estado normal a 39,5 graus de febre instantaneamente equivale a um nocaute. E que pode sempre ser pior se quando isso ocorrer você estiver viajando no modo econômico pela Indonésia: ferry boat, ônibus local, de carona, a noite, etc. Com a dengue também aprendi o que um mosquitinho (aliás “uma mosquita” rs) é capaz de fazer com uma pessoa com infinitas vezes o seu tamanho. Depois de um bilhão de picadas nos últimos meses na Ásia, veio um “justiceiro” e se vingou por todos os que matei na palmada rs. E isso tudo porque na verdade me disseram no hospital que era uma suspeita de dengue. E foi assim tão foda (não, não tem uma palavra melhor para usar!) que eu não gostaria de saber o que é ter a certeza de dengue. Afinal sou uma pessoa que fica tranquila de morrer sabendo que não terei algumas experiências nem certezas na vida.

Eu poderia morrer sem ter sabido o que é ter dengue, por exemplo. Tranquilamente. Mas ela me ensinou tanto nos 10 dias que passamos juntas que agora, depois de passada a dor e o sono e o mal estar e febre e falta de apetite e tudo isso, quase agradeço ela ter aparecido. Não porque eu gosto de sofrer nem porque parece que perdi uns quilinhos rs. Claro que não é por isso. Ela foi importante porque ela me pôs na cama, muito mal, sem seguro, na Indonésia e sozinha quase todo o tempo (uns 3 dias tive alguns amigos queridos me deram uma força, afinal a vida bate mas sempre assopra!). Sim, olhando assim o que se vê é uma merda de situação. E não tem como não aprender com isso. É essencial dizer também que o episódio dengue foi importante porque, ironicamente, a doença foi adquirida na viagem que me deu mais felicidade nos últimos tempos. Minha viagem para Flores. Quando a médica disse que pelas datas eu deveria ter sido picada lá, até porque em Bali não tem tanta incidência, um riso irônico surgiu em meu rosto. Justo em Flores? Justo onde eu me vi radiante e me prometi ser feliz para sempre? Claro, pois eu mesma disse que a minha felicidade não poderia mais estar condicionada a nada nem ninguém nem a eu mesma. Então claro que tinha que ser lá. E o que eu digo agora depois de pegar dengue bem nesta viagem tão cheia de significado? Como não ser grata por estas ironias da vida?

Bom. Mas a parte mais importante mesmo desta lição chamada dengue, que eu vou levar para sempre comigo, é que definitivamente eu agora sei que sou forte. Sem falsa modéstia e cheia de certeza. Até porque muitas vezes eu odeio perceber que sou forte. Às vezes eu queria muito era ser frágil e insegura e fracotinha-indefesa. E eu já tentei muitas vezes ser assim, meio sem jeito mas de verdade. Profundamente. E foi normalmente quando eu mais me fudi (de novo não tem uma palavra melhor pra usar, mesmo!). Porque normalmente eu tento ser assim perto de pessoas bem egocêntricas e que rapidamente me aceitam então como frágil e insegura e fracotinha-indefesa, e é quando eu acabo sendo pisoteada. Justamente porque estas pessoas bem egocêntricas se acham mais que são frente a pessoas que se mostram menos que realmente são. Coitadas. Ambas, né? Mas enfim. É só o joguinho mesquinho que todo mundo participa de vez em quando, quase nunca involuntariamente. Parte da brutalidade humana. Parte do que somos, talvez? Deve ser a tal lei da selva. Não sei bem. O que sei agora e o que importa mesmo é que eu me vi forte! E não como antes. Me vi forte de uma força menos dura. Uma força que vem do fundo e não de fora. Em paz e espontaneamente. Não aquela força cheia de agressividade que o mundo que eu enxergava antigamente me fazia crer que eu precisava ter. Para me “defender”. Não. A força que falo agora é mais bonita, humana e natural. Não dói nem machuca ninguém.

E foi com esta força que parece que nasceu da paz que passei meus dias com a dengue. Sem ninguém para me abraçar, sem ninguém para atender se eu estava bebendo água suficiente. Sem ninguém para medir minha febre. Eu fui fazendo tudo isso por mim mesma, e descendo 10 lances de escada como se vencesse uma maratona, e engolindo meio prato de arroz como se estivesse comendo um javali pela perna, sozinha. Mas tranquila. Sem me sentir desamparada, sem coitadismo. Quase gostando de me ver tendo a oportunidade dura de ter que cuidar de mim mesma com amor e tranquilidade e sozinha e de bem com a vida. Mesmo a vida estando bem pesada naquele momento. Mas principalmente, por me ver e me aceitar sozinha. Do jeito que vim ao mundo e do jeito que dele uma hora destas vou partir. Não que receber carinho de amigos e pessoas do bem não seja maravilhoso! Mas nos meus dias de dengue fui percebendo que a vida é isso aí mesmo, simples, um dia após o outro. Sem tanta complicação. Às vezes fácil, às vezes difícil. Às vezes com companhia, às vezes sozinha. Às vezes com muita saúde, às vezes com pouca. E nem por isso é preciso sair julgando o mundo de cruel, a vida de injusta ou a doença de azar. Naturalmente eu aceitei o que veio. E vivi estes dias que tinham que ser vividos. Só isso. Um dia. Outro dia. Eu e a vida. E apenas nós duas. E a dengue, claro.

Trilha sonora: Legião Urbana em Quando o sol bater na janela do seu quarto