Reflexões sobre nossa relação com os animais e a lição de uma castanheira

Quero escrever um pouco sobre isso da gente pensar que a nossa existência humana é mais importante que a de outras espécies. Nós, super humanos, saímos da idade da pedra e hoje somos capazes de criar uma porrada de tecnologia. Tudo está cada vez mais rápido e mais potente e mais ambicioso. Engenharia espacial. Engenharia genética. E não precisamos ir tão longe para nos sentirmos superior. Bastaria mencionar que dominamos a escrita e a fala para convencer alguns de nossa superioridade. Mas e de que adianta saber falar se ouvir está cada vez mais raro? Não damos ouvido a milhares de apelos vindo de ONGs no mundo todo mostrando os maus tratos dos animais que são (ab)usados como comida, vestimenta e entretenimento. Não queremos saber! Na verdade a gente mal escuta o que a pessoa que vive do nosso lado fala, como esperar que seja dado ouvido a animais clamando em silêncio se consideramos sua existência menos importante que a nossa?

A mim me custou uma vida para reagir. Foi este ano viajando que, finalmente, consegui me sensibilizar com algo mais que eu mesma e os que me cercam. Sensibilizar de verdade!, e não soltar algumas lágrimas vendo um vídeo dramático, virar as costas, fechar os olhos e continuar fazendo exatamente a mesma coisa. Acho que comecei a entender o que é ter compaixão. Consegui enxergar que temos todos direito à vida. Todos! Que estamos todos relacionados, todos interligados, que a vida é, em última instância, única. Consegui ir além do especicismo e me sensibilizar também com o sofrimento de outras espécies. Consegui enxergar que os animais sofrem como a gente sofreria se fosse separado de nossa mãe quando bebê, vivesse em confinamento, ou fosse ainda obrigado a viver para servir de diversão alheia.

Adoro elefantes, sempre gostei. Passei um ano na Índia e na Ásia. Um ano com incontáveis oportunidades de pagar para ser carregada por eles, para levar uma ‘trombada’ de água na cara. Pagar e contribuir para que esta exploração desmedida dos animais se perpetue? Gente, animais não são palhaços! Se o que me cabe fazer é uma parcela ínfima, é esta que farei. Não incentivando. Não pagando, como muitas pessoas com dinheiro e supostamente esclarecidas estão fazendo: dando a mínima, a mínima para o que está acontecendo ali onde elas estão se divertindo. Será que tudo vale a pena por uma foto no Facebook em cima de um elefante acorrentado ou acariciando um tigre dopado? Será que satisfazer um desejo (que compartilho) de estar perto de animais selvagens vale ignorar que eles estão ali obrigados? Quem ali pára para pensar no que, de fato, esta acontecendo bem na frente do seu nariz? Um amigo tentou me convencer que ele pagou mais caro para ir a um lugar bacana, onde as pessoas acolhem elefantes que já não podem mais trabalhar, que estão doentes ou machucados. Como é que é? Agora elefante se aposenta? Quando é que ficamos tão prepotentes e tão cegos? Claro que eu concordo que agora elefantes precisam de asilo. Claro… Assim como concordo que estamos perdidos! Perdemos o contato com a vida. Somos parte de uma cegueira coletiva, arrogante e institucionalizada.

Ontem eu vi um programa da BBC que mostrava que a árvore que dá a castanha do Brasil, árvore esta que carrega em todos idiomas o nome do nosso país, depende das cutias e de um tipo único de abelha para sobreviver – uma vez que as tentativas do homem de cultivá-la foram em vão. Somente a cutia, dentre todos os outros animais na floresta, consegue abrir a vagem dura onde as castanhas estão. A cutia come então algumas castanhas e enterra outras, para mais tarde. A castanheira depende da má memória da cutia para continuar existindo, pois algumas castanhas são esquecidas! E depende também de uma espécie de abelha, que é maior que a média e por isso consegue abrir o miolo da flor da castanheira, para a polinização. Será assim tão difícil ver que tudo está relacionado? Que somos todos, todos, parte de uma única realidade? Que a beleza da vida está justo nessa interdependência? Estamos tão afastados da essência da vida, completamente absorvidos por este mundo material tão vazio e tão desgastante, que além de não sabermos ouvir, não conseguimos mais ver?

Não espero que sejamos todos vegetarianos, veganos, que não visitemos mais circos, Sea World, zoológicos. Respeito o livre arbítrio e sobretudo enxergo que todos temos um tempo certo para despertar. Mas será que dá para ao menos ter consciência do impacto de cada escolha e não simplesmente fingir que nada está acontecendo, pensar só no próprio umbigo ou número de likes? Façamos um favor a nós mesmos, andemos um pouco descalço na grama qualquer dia destes para lembrar que somos parte e não donos disso tudo. E também para lembrar que é de lá que viemos e que é para lá que vamos. Sem exceção.

Trilha sonora – A Galinha de Os Saltimbancos (por uma infância feliz  e com músicas boas)

Aqui alguns links que eu SUPER recomendo:

SAMSARA –  curta (6 min) que mostra apenas em imagens a cadeia alimentícia e como os animais são tratados neste meio: https://www.youtube.com/watch?v=k56NBsZXjr8

Earthling – sobre o tratamentos dos animais desde estimação, comida, vestimenta e testes cosméticos https://www.youtube.com/watch?v=vPtrekRyTMA

Blackfish – sobre a real condição das baleias orcas em parques aquáticos: (trailer) https://www.youtube.com/watch?v=owaZIWdkV_g

Segunda sem carne – iniciativa super bacana para os que estiverem interessados em dar um primeiro passo :): http://www.segundasemcarne.com.br/

 

 

Anúncios