Idade é um lugar que não existe

Quaisquer que sejam os sonhos (ou metas) que tenha na vida, eu aconselharia você a tentar deixar um pouco de lado este negócio de idade. Claro que inegavelmente idade pode ser um fator limitante a certa altura do campeonato, por questões fisiológicas. Só que para a GRANDE MAIORIA do que podemos e queremos viver, mas não vivemos, este negócio de idade é uma grande besteiraque só serve para limitar, reprimir, esmagar!

As fases da vida. Há idade para estudar, para festar, fazer dinheiro, casar, ter filho, aposentar. Numa dada faixa etária é esperado que você sinta a necessidade de viver cada uma destas fases – nesta ordem – como todo mundo faz. Que é a ordem socialmente bem aceita. Toda a liberdade que querem que a gente acredite que foi adquirida ao longo do tempo acaba quando você para de seguir a manada. A gente tem o direito de ser diferente – mas tem limite. A gente pode questionar – até certo ponto. E quanto mais o tempo passa, e quanto mais a gente convive com gente que pensa assim, mais assim ficamos – rotuladores. Então o meu segundo conselho seria: conviva com gente mais nova que você.

Durante meu ano viajando, a esmagadora maioria das pessoas com as quais convivi era de gente mais nova. Eu, castradora de mim mesma que sempre fui, várias vezes olhei para isso de um jeito meio triste, quase com pena de estar fazendo esta viagem “tão tarde” – e esquecendo de toda a coragem e desprendimento que precisei ter justo para fazer isso mais tarde. Então, já na estrada, um dia me vi viajando por quase dois meses com um inglês de 19 anos. Quando ele entrou no grupo de amigos com o qual eu viajava naquela época, e fez a primeira “brincadeira boba”, apelidei ele de Nenê. Só que além de fazer brincadeiras bobas, para minha alegria, descobri que ele era super aventureiro, inteligente, sensível e engraçadíssimo! Tanto que quando o grupo se separou eu continuei viajando com ele por mais um tempo. O Nenê é destes caras fora da curva: antes de entrar para a faculdade trabalhou e juntou dinheiro para viajar sozinho por 6 meses, começando pela Índia (e eu respeito muito quem vai para lá sozinho – sobretudo aos 19 anos). Ele sempre aprendia com facilidade palavras do idioma local e falava com todo mundo – todo mundo mesmo.

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Com o Nenê em Ankor Wat, Camboja

Desta época viajando junto com ele guardo experiências incríveis e ciladas homéricas, que com alguém “da minha idade” provavelmente eu não viveria. Por causa dele eu sei o que é dormir em Hostel de 1 dólar a cama (para que ele parasse de me chamar de Princess rs). Por causa dele eu sei o que são bed bugs. Mas também por causa dele (e seu super desprendimento) demos aula de inglês para crianças numa vilazinha remota do Camboja (experiência encantadora!). Por causa dele conheci a paradisíaca ilha de Koh Rong, onde nadei de madrugada com plânctons brilhando no mar e vi os jogos da Copa do Mundo madrugadas a dentro no único bar que possuía gerador (bebendo cerveja quente). Com ele ri horrores numa pool party lotada na Tailândia (que eu jamais iria se estivesse sozinha). Dele eu tenho as fotos mais idiotas fazendo as caretas mais engraçadas. E quando falei da minha vida e dos meus sonhos, foi dele que ouvi os comentários mais bacanas e inusitados, que só um mochileiro de 19 anos poderia me dar.

Viajando com o Nenê eu me senti livre novamente – livre de rótulos. Eu esqueci minha idade e quaisquer impedimentos que eu supostamente deveria me impor por não ter mais 20 anos – e a partir desta convivência eu resolvi entrar sozinha no Vietnam, de ônibus e sem planos, e tive uma das experiências mais bacanas da minha vida.

Eu sei que é bom estar com gente que pensa como a gente, que tem a mesma idade, que enxerga tudo mais ou menos da mesma maneira. É cômodo, mas sair mesmice é revelador. Idade é um lugar que não existe. E ser o tiozão (ou tiazona) acrescenta algo importantíssimo a sua vasta experiência se você permitir: acrescenta vida! Por isso eu desejo que você esqueça esta besteira de que há uma idade certa para cada coisa. Que você se permita conviver um pouco com pessoas mais novas (de idade e de espírito). E sabe do que mais? Torço também para que você tenha a sorte que eu tive, e que um dia um amigo Nenê venha e renove a sua vida.

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Uma das mil caretas. Esta na Pub Street em Siam Reap, Camboja

 

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Estou de pijama, volte mais tarde

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Mesmo que muitas vezes pareça que com a gente eles são mais frequentes e mais difíceis, dias ruins acontecem para todo mundo. É tão natural e parte do nosso processo de crescimento passar por momentos assim, e hoje em dia, de maneira contraditória, parece que é feio se deixar abater. A tristeza não é inimiga, gente! Ao contrário. Se nós, pobres mortais, não tirarmos alguns momentos para refletir e ir fundo, bem fundo em nossas dores e dificuldades, e simplesmente passar como um trator por todas as experiências que podem nos fazer crescer, que proveito estamos tirando? A gente sempre pode e às vezes precisa tirar um dia para ficar “de molho” – pensando, chorando, questionando-se, ouvindo um tango ou dando carinho ao cotovelo. De vez em quando o dia do pijama simplesmente acontece! É aquele famoso mal necessário.

Não temos como escolher o que se passa em nossa volta. Pegar só o que for agradável. Muito pouco está sob nosso controle. O que podemos é escolher como olhamos para o que acontece. Podemos mudar nossa própria mente, pois é ali que tudo o que experimentamos na vida nasce e depois morre, passa. Se você prestar atenção é a nossa mente que determina o tipo de vida que levamos. É tão impressionante como isso é verdade! E também é tão impressionante como é difícil fazer qualquer pequeno ajuste! Se percebermos como a vida vem em ondas, com seus altos e baixos, tempestades e calmarias (.. e isso o Lulu Santos vem cantando desde os anos 80), vemos também que quanto mais fundo formos no processo de autoconhecimento, quanto mais fundo mergulharmos para dentro de nós mesmos, menos importância tem se as ondas estão boas ou ruins. Quando nas profundezas do oceano, ou de nós mesmos, o que ocorre na superfície deixa de ser tão importante. Sabe aquele casal que sobreviveu ao grande Tsunami há 10 anos porque estava mergulhando no momento que a onda passou? Então.

Só que o caminho é longo. Somos mais profundos que julgamos. E a maioria de nós está longe de ser um buda. É por isso que sou a favor da descriminalização dos dias cinzas. Deixem os dias cinzas acontecerem! Se a tempestade foi grande, pegou de jeito e a gente quer chorar, que chore. Se a gente que ficar na cama, que fique. Se a gente não quer ver ninguém, que assim seja! Qual é o problema de assumirmos nossas fraquezas e termos um tiquinho de autopiedade? Ninguém está aqui defendendo passar a vida resmungando, deprimido ou culpando o mundo. Muito pelo contrário. Só quem pára para se conhecer é que deixa de se vitimizar. Algumas vezes o melhor abraço é o nosso próprio. Crescer leva tempo e o silêncio é um grande amigo. Tristeza não significa infelicidade. Dias de dor são importantes neste processo de mergulhar fundo em quem a gente realmente é. Dias de derrota são importantes para aprendermos a cair e depois, levantar. Somos aprendizes.

A experiência me diz que só aprende a levantar quem passa pela queda. Entre cair e levantar temos que descansar, lamber as feridas e entender o tombo. Para isso nada melhor que dias introspectivos. E por favor, não tem nenhum drama aqui não, só estou de pijama, volte mais tarde!