Sobre o infinito em nós

Acreditar-se infinito num mundo de amores que acabam. De banalidades que ficam. De dilemas que te fazem mesquinho. Acreditar-se infinito e se observar ínfimo diante de um mundo que corre não se sabe para onde. De questões cotidianas que expõem o teu pior. De problemas que te apequenam. De relações pueris. Acreditar-se infinito mas se perder num mundo tão grande e tão pequeno. Tão maravilhoso e tão rude.

Que brutalidade colocar o infinito neste corpo mortal. Neste coração frágil. Nesta mente condicionada. Qual seria o sentido de colocar um pedaço do céu num potinho de vidro? Querendo ainda que ele sinta que também é aquela imensidão azul – mesmo ele se vendo ali, tão pequeno. Mesmo ele se sabendo vezes tão opaco que luz nenhuma entra. Mesmo ele se sabendo frágil – e que vai se partir muito (até a hora de partir). Mesmo ele se sabendo tantas vezes impotente diante de uma vida tão bela e tão assustadora.

Como viver o infinito num dia a dia tão minúsculo?

Como amar ao infinito em relações tão egoístas?

Como mergulhar no infinito em piscinas tão rasas?

 

Em alguns momentos nos tornamos mesmo nada mais que um grão de areia. Fragilizados olhando boquiabertos para todas as nossas experiências, que sempre dizem tanto, mas que nestas horas não apontam nada. E racionalizar já não funciona. Nem chorar. Nem ir. Nem ficar.

Mas felizmente a vida continua. E você continua. E se abre mais uma vez para o desconhecido, como se o novo pudesse te tirar do seu velho lugar de sempre. Da sua condição de infinito limitado por valores e crenças herdadas nem se sabe de onde. De infinito tendo que se mover cuidadosamente no tempo e no espaço. E você se joga em qualquer desconhecido que lhe sorri um sorriso amoroso. Que lhe toca a alma. Mesmo que exalando uma confiança que você sabe que não existe em lugar algum. Mesmo que gargalhando uma espontaneidade que lhe encobre todo o rigor. Como se te abraçasse dizendo que tem a resposta – aquela resposta que só você pode ter.

Só que não há lugar onde o infinito caiba sem doer. E o desconhecido sempre manda a conta.

Pagamos a conta e seguimos. Encarando o que aparecer. Nesta luta de encaixar o amor infinito em jogos afetivos tristes e banais. De encolher a paz infinita na corrida enfurecida do mundo. De doutrinar a consciência infinita nas mazelas de nossas mentes perturbadas e sofridas.

Que pelo menos a nossa prece seja a de não esquecermos, mesmo em meio a dor, que somos todos infinito. E que esta certeza seja curativa e nos prepare incansavelmente para não desistirmos – para não desistirmos de simplesmente sermos o infinito de nós mesmos.

Anúncios

A preguiça gritou olééé

Hoje tive pico estratosférico de preguiça! Sim, daquela preguiça que te joga na cama bagunçada, o braço caído pro lado, a boca aberta, olhando pro nada. Tentei dormir e nem isso consegui. Preguiça até de tentar dormir. Resolvi escrever – desculpa aí, gente!

É que toda esta preguiça me fez pensar. Quando eu estava na estrada eu raramente sentia preguiça. E também não tinha uma porção de metas (mensuráveis!) que dizem que temos que ter para a vida fazer sentido. Meu compromisso era tão somente com descobrir – a própria vida, as culturas, as pessoas, as comidas – eu mesma. Eu estava aberta e sem preguiça de rever minhas crenças, quebrar paradigmas, encarar o novo. Foi quase um ano de poucos planos. Foi quase um ano deixando a vida fluir. Não havia preguiça nem tampouco tarefas a serem executadas. Nem pessoas para agradar. Prazos para cumprir. Papéis para assumir. Leituras obrigatórias. O politicamente correto. Dieta. Regras. E ao final de um ano eu descobri que a vida por si só, veja que coisa!, dá conta de dar sentido – sem termos que impor o tempo todo nossa bagagem cheia de ansiedade e frustração.

Mas voltando ao dia de hoje. Hoje o surto de preguiça começou com um teste de tolerância a lactose que fui cedo fazer e me obrigou a passar duas horas sentadas assistindo de Bom dia Brasil a todo o programa da Ana Maria Braga. Gente, ela dá muita preguiça! Tentei ler meu livro. Sem chances. Esta preguiça que vinha aos poucos se instalando aqui dentro faz algum tempo, hoje subiu ao céu e voltou: tive um surto de preguiça com a preguiça que tanta gente sente.

O surto foi com a preguiça da preguiça. Preguiça da preguiça em parar para pensar. Da preguiça de questionar suas próprias verdades – e achar mais cômodo encontrar três razões para continuar assim do que uma para mudar. Da preguiça de clicar e ler uma notícia antes de dar um like. Da preguiça de olhar com compaixão para o ser humano do lado – e ter que talvez entender que ele também é gente mesmo sendo um desconhecido. Um mendigo. Um chato. Um fanático. Da preguiça de respeitar a opinião do outro. Da preguiça de se colocar no lugar do outro. Da preguiça de aceitar que o outro pode estar certo – e então melhor cortar, bloquear, excluir antes que dê trabalho. Da preguiça de ser gentil. Da preguiça de sair da zona de conforto – mesmo ela sendo tudo menos confortável. Da preguiça de se perguntar se vale mesmo a pena ser tão extremista e rígido em suas ideias – a ponto de ter um trabalhão para manter em pé o que se brada aos quatro ventos. Da preguiça de ter que perceber que antes de ser A B ou C todo mundo é uma pessoa – e que apenas por isso merece respeito como tal mesmo quando suas ideias ou atos não são tão bacanas. Da preguiça de se olhar de um jeito amplo e ver o quanto se fica pequeno insultar quem tem a visão política D ou E só porque se é E ou D. Preguiça da preguiça de tirar uns minutos por dia para lembrar que a vida é curta pra cacete – e que talvez não valha a pena gastar tempo com tanta regra, crença ou bobagem mesmo. Da preguiça de se questionar se faz sentido fazer tantos planos e ser tão exigente – sendo que todo mundo sabe que a gente não controla quase nada por aqui. Da preguiça de criar laços e trocar experiências enriquecedoras – e preferir manter a vida naquele ritmo de festinha sem graça sem porque nem pra que. Da preguiça de sequer ler isso aqui sem ter uma série de ideias e julgamentos pré-formatados a meu respeito ou sobre o tema, baseados em um passado estático que ao invés de ser usado como suporte só serve de barreira para crescer e se abrir. Muita preguiça desta preguiça toda que eu vejo por aí. Adoro Gente, mesmo!, mas gente com toda esta preguiça aí me dá preguiça pacas!

Eu poderia escrever muito mais sobre isso tudo, mas para que? Vou ali lidar com a minha preguiça que tá grande – antes que vire tristeza.

Hoje ela me nocauteou. Amanhã eu “esmago” ela – olha que fofinha 😉

preguiça