é a vida que pergunta

Ontem me perguntaram se eu encontrei o que procurava quando larguei tudo. Precisei dar um passo atrás para ter uma visão mais ampla antes de responder. Acho que só tinham me perguntado isso, desta forma, uma vez.

Não. Se eu não estou enganada eu não encontrei o que procurava, já que as perguntas que tinha quando larguei tudo foram deixando de fazer sentindo ao longo do caminho. Aquela que tinha as perguntas foi deixando de existir, de alguma forma. Outras perguntas vieram e também morreram enquanto andava. A cada chai, a cada banheiro indiano, a cada pessoa, a cada templo, a cada morning glory (ou cah kankung na Indonésia), a cada dia na praia ou na montanha, a cada roubada, a cada abraço, a cada prática de yoga ou meditação, a cada momento de solidão, a cada momento de plenitude, a cada ônibus local, a cada riso, a cada choro. Tudo foi mudando. Tudo sempre está mudando. Então por que ficamos correndo atrás de respostas para perguntas que também mudam?

Por que a gente se preocupa tanto com as tais respostas?

Não importa a resposta! Não importa resposta de pergunta que ficou oca.

Definitivamente eu não encontrei as respostas para as perguntas que tinha quando larguei tudo. Definitivamente eu não me importo com as possíveis respostas para perguntas envelhecidas.

Encontrei o que me procurava. E o que importa é isso.

O que importa é, a cada instante, estar aberto para encontrar o que nos procura.

É a vida que nos pergunta! Precisamos nos tornar a resposta.

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Sai fora, medo!

E se a gente errar feio, for rejeitado, criticado, gaguejar, pisar na bola, ouvir um não, escorregar?

Que importa?

Quantas vezes já não caímos? Quantas vezes ainda cairemos?

Quem tem este número na cabeça?

De que serve o medo se não for aquele pela sobrevivência, que nos protege de um perigo real de morte? De que serve este medo inventado que dá de dedo na nossa fuça e nos paralisa? De que serve este medo psicológico que fica espionando nossos sonhos procurando as falhas que ainda nem aconteceram? Que talvez nunca aconteçam! De que serve este medo que antes do não chegar já traz o cartaz mostrando nossa cara de tacho se o não vier? De que serve este medo que ri da gente cada vez que não dá certo? Este medo que a cada gargalhada destas vai ficando maior, maior e maior – tipo o Popeye quando comia espinafre! Por que diabos deixamos nossos tropeços serem este espinafre?

Por que diabos não usamos estes tropeços como prova de garra e coragem de ao menos termos tentado? Por que não usamos as rejeições como prova de que temos coragem de nos expor frente ao inesperado que é o coração de outra pessoa? Por que não usamos a queda para lembrar que ousamos dar um salto no desconhecido? Por que, ao contrário, usar a prova da nossa abertura frente ao incontrolável da vida justo como catalisador deste medo que nos paralisa? Por que damos casa e comida a este medo que só serve para encher o saco e colocar a gente para baixo?

O problema é que também não adianta se revoltar e tentar expulsar ele de casa. Este medo é como um bicho de estimação que você não queria, mas alguém da família insistiu e trouxe para casa ainda filhotinho: não pode mandar embora depois que ele cresceu e ficou muito maior (e folgado) do que você imaginou quando ele ainda cabia na sua mão! Ele é parte da família, é da casa. Tem que fazer amizade e conviver em paz. E o medo pode ser uma boa companhia se bem educadinho! Pode ser aquele frio na barriga que te impulsiona a se preparar melhor. Pode ser aquela voz suave que pede para você meditar antes de tomar uma decisão. Pode ser a música de fundo que lembra que você está passando por uma mudança e, portanto, saindo daquela zona de conforto enfadonha, sem graça e que não levava a lugar nenhum!

Cada dia mais acredito que o segredo está em fazer as pazes com o que vai nos testando ao longo da vida. Com o buraco da calçada, com o cara que te deu um fora, com as pessoas que não riram da sua piada mas riram da sua cara, com o chefe que te mandou embora, com o mal-educado que roubou a vaga de estacionamento, com o passado que machucou, com o futuro projetado que talvez nunca aconteça. Cada vez que eu consigo fazer as pazes, o medo que antecedeu situações que “deram errado”, e já estava ali pronto e de peito aberto para me assustar dentro do quarto escuro – ou se transformar em culpa, autopunição – fica sem graça, se encolhe e vai embora resmungando. É só eu acender a luz e ta tum duschhhh!