A dengue ensina

Primeiro de tudo a dengue me ensinou que ela dói, e dói bastante. Depois dela suponho agora saber o que é ser atropelada por uma jamanta. Duas vezes. Aprendi também que ir de um estado normal a 39,5 graus de febre instantaneamente equivale a um nocaute. E que pode sempre ser pior se quando isso ocorrer você estiver viajando no modo econômico pela Indonésia: ferry boat, ônibus local, de carona, a noite, etc. Com a dengue também aprendi o que um mosquitinho (aliás “uma mosquita” rs) é capaz de fazer com uma pessoa com infinitas vezes o seu tamanho. Depois de um bilhão de picadas nos últimos meses na Ásia, veio um “justiceiro” e se vingou por todos os que matei na palmada rs. E isso tudo porque na verdade me disseram no hospital que era uma suspeita de dengue. E foi assim tão foda (não, não tem uma palavra melhor para usar!) que eu não gostaria de saber o que é ter a certeza de dengue. Afinal sou uma pessoa que fica tranquila de morrer sabendo que não terei algumas experiências nem certezas na vida.

Eu poderia morrer sem ter sabido o que é ter dengue, por exemplo. Tranquilamente. Mas ela me ensinou tanto nos 10 dias que passamos juntas que agora, depois de passada a dor e o sono e o mal estar e febre e falta de apetite e tudo isso, quase agradeço ela ter aparecido. Não porque eu gosto de sofrer nem porque parece que perdi uns quilinhos rs. Claro que não é por isso. Ela foi importante porque ela me pôs na cama, muito mal, sem seguro, na Indonésia e sozinha quase todo o tempo (uns 3 dias tive alguns amigos queridos me deram uma força, afinal a vida bate mas sempre assopra!). Sim, olhando assim o que se vê é uma merda de situação. E não tem como não aprender com isso. É essencial dizer também que o episódio dengue foi importante porque, ironicamente, a doença foi adquirida na viagem que me deu mais felicidade nos últimos tempos. Minha viagem para Flores. Quando a médica disse que pelas datas eu deveria ter sido picada lá, até porque em Bali não tem tanta incidência, um riso irônico surgiu em meu rosto. Justo em Flores? Justo onde eu me vi radiante e me prometi ser feliz para sempre? Claro, pois eu mesma disse que a minha felicidade não poderia mais estar condicionada a nada nem ninguém nem a eu mesma. Então claro que tinha que ser lá. E o que eu digo agora depois de pegar dengue bem nesta viagem tão cheia de significado? Como não ser grata por estas ironias da vida?

Bom. Mas a parte mais importante mesmo desta lição chamada dengue, que eu vou levar para sempre comigo, é que definitivamente eu agora sei que sou forte. Sem falsa modéstia e cheia de certeza. Até porque muitas vezes eu odeio perceber que sou forte. Às vezes eu queria muito era ser frágil e insegura e fracotinha-indefesa. E eu já tentei muitas vezes ser assim, meio sem jeito mas de verdade. Profundamente. E foi normalmente quando eu mais me fudi (de novo não tem uma palavra melhor pra usar, mesmo!). Porque normalmente eu tento ser assim perto de pessoas bem egocêntricas e que rapidamente me aceitam então como frágil e insegura e fracotinha-indefesa, e é quando eu acabo sendo pisoteada. Justamente porque estas pessoas bem egocêntricas se acham mais que são frente a pessoas que se mostram menos que realmente são. Coitadas. Ambas, né? Mas enfim. É só o joguinho mesquinho que todo mundo participa de vez em quando, quase nunca involuntariamente. Parte da brutalidade humana. Parte do que somos, talvez? Deve ser a tal lei da selva. Não sei bem. O que sei agora e o que importa mesmo é que eu me vi forte! E não como antes. Me vi forte de uma força menos dura. Uma força que vem do fundo e não de fora. Em paz e espontaneamente. Não aquela força cheia de agressividade que o mundo que eu enxergava antigamente me fazia crer que eu precisava ter. Para me “defender”. Não. A força que falo agora é mais bonita, humana e natural. Não dói nem machuca ninguém.

E foi com esta força que parece que nasceu da paz que passei meus dias com a dengue. Sem ninguém para me abraçar, sem ninguém para atender se eu estava bebendo água suficiente. Sem ninguém para medir minha febre. Eu fui fazendo tudo isso por mim mesma, e descendo 10 lances de escada como se vencesse uma maratona, e engolindo meio prato de arroz como se estivesse comendo um javali pela perna, sozinha. Mas tranquila. Sem me sentir desamparada, sem coitadismo. Quase gostando de me ver tendo a oportunidade dura de ter que cuidar de mim mesma com amor e tranquilidade e sozinha e de bem com a vida. Mesmo a vida estando bem pesada naquele momento. Mas principalmente, por me ver e me aceitar sozinha. Do jeito que vim ao mundo e do jeito que dele uma hora destas vou partir. Não que receber carinho de amigos e pessoas do bem não seja maravilhoso! Mas nos meus dias de dengue fui percebendo que a vida é isso aí mesmo, simples, um dia após o outro. Sem tanta complicação. Às vezes fácil, às vezes difícil. Às vezes com companhia, às vezes sozinha. Às vezes com muita saúde, às vezes com pouca. E nem por isso é preciso sair julgando o mundo de cruel, a vida de injusta ou a doença de azar. Naturalmente eu aceitei o que veio. E vivi estes dias que tinham que ser vividos. Só isso. Um dia. Outro dia. Eu e a vida. E apenas nós duas. E a dengue, claro.

Trilha sonora: Legião Urbana em Quando o sol bater na janela do seu quarto

 

Felicidade em flores

Sem pompas nem visões nem excitação maior que já sentida outras vezes nesta vida, ontem alguma coisa mudou em mim. Foi de repente. E decidi ser feliz. Feliz de verdade. Pela estrada empoeirada de Flores, janela aberta e vento quente no rosto, a pena saia mundo afora e diante daquela paisagem encantadora, ia se evaporando. A partir de agora serei feliz para sempre. Simplesmente feliz. Feliz da maneira mais simplória que se pode ser: feliz por existir. Feliz por nada. Feliz por tudo. Na saúde e na doença. Na alegria e na tristeza. Até que a morte nos perpetue, serei feliz. Numa promessa em que nada foi prometido. Sem contrato, nem testemunhas, nem festa, uni-me com a vida. Esta minha vida mesmo. De agora. De antes. De sempre.

Foi lentamente. Lentamente fui me desprendendo até enxergar a felicidade como ontem. Com muita dor, toneladas de amarras, ilusões e equívocos foram ficando pelo caminho. E foi aqui, do outro lado do mundo, no ponto mais distante que vim até hoje, que a vida ganhou outras cores. Outra dimensão. Foi em Flores, e não poderia ser em outro lugar senão na Indonésia. Talvez meu amor desmedido por esta terra esteja agora explicado. Aqui sinto meus olhos mais abertos. Meu coração, mais vivo. Todo o amor que deixei aqui há 2 meses é quem sabe a semente deste despertar. Por causa deste amor, voltei. Nada na Indonésia acontece como imagino, mas tudo parece estar tão certo. Perfeito na sua imperfeição.

Uma alegria arrebatadora e sutil, sem explicação, sem motivo, sem porque, veio e explodiu num sorriso bobo que demorou a sair do meu rosto. Campos de arroz. Palmeiras. Montanhas. Vulcões. Mar. Crianças correndo. Estar naquela estrada, naquele carro, naquela ilha, naquele momento eram a razão da minha felicidade. E mais nada. Nada mais importava. Não importava a conta no banco. Não importava o peso do passado. Não importava o coração machucado. Não importava a incerteza do futuro. Não importava a saudade. Falta de planos, de grana, de amor, de sexo. Nada mais me impediria de ser feliz. Nem nada nem ninguém nem eu mesma. Não haveria tristeza suficiente. Eu era feliz independente de qualquer expectativa frustrada ou sonho não realizado.

E por estar numa ilha de maioria católica, digo: que assim seja. Amém.

Trilha sonora – Bob Dylan em Blowin’ in the wind