Ensaio sobre uma busca

Devia estar fazendo uns dois anos que a olhos vistos tudo começou a se mexer e ruir e modificar. Antes, sinais. Esboços entre piscadas rápidas daqueles olhos adormecidos. Talvez o início tenha sido muito antes, com sutileza tamanha que no modo grosseiro de encarar a vida jamais se observa. Mas o movimento certamente já devia estar ali. Pulsando.

Saltou para o desconhecido que nunca esteve em outro lugar. O desconhecido que nos habita.

Um dia o ser mais enraizado de si cansou e abriu espaço. Ajoelhou, desistiu. Lutara por tanto tempo e ainda sim, sentia-se miserável e incapaz de dar mais um único passo adiante. Começara a entender que a vida não se leva a golpes. Não sem pagar um alto preço que já não podia. Era como se estivesse vivendo para pagar um agiota. Jamais saldaria a dívida! Jogou a toalha.

Entregou o comando na esperança de se renovar.

Somos todos habitados por diversas versões que coexistem hora em paz hora em conflito. Uma versão livre e corajosa se prontificou a assumir aquele titanic. Coragem deve ser uma característica comum entre todas as minhas versões, acreditava. Tardiamente ainda ia descobrir que dava abrigo também a covardes.

Com alguma coragem a vida pode ser incrível.

E com coragem, muita, foi para bem longe, e quanto mais se afastava mais a palavra sabedoria ia tomando corpo e se fazendo clara. Finalmente a rígida busca pelo conhecimento lógico e formal ia perdendo toda a graça que de fato nunca teve. Entendia sim sua importância no mundo corriqueiro, mas o processo intenso de ver aquelas experiências inimagináveis se tornarem parte de si era incomparável. Via-se invadindo por elas pela pele e poros, e sua mente atônita em vão tentava processar aquilo tudo. Já possuía e agora ainda mais, a sede de dar um sentido maior a seu caminhar. Algo que se lhe tomassem tudo, ainda sim faria a vida ter valido a pena. Perdia-se sempre nesta coisa de valor e sentido, mas havia na sua busca a sinceridade de uma criança que sem querer acusa a si mesma. E livre de uma liberdade impensada teve a certeza de que não era vivendo no mundo cotidiano e doentio que conseguiria isso. Certeza esta que mais tarde pagaria o preço por ter decretado. Iria voltar atrás em mais esta conclusão. O sentido da vida não pertence a este mundo enlouquecido, entendeu, mas é aqui no meio do caos que deve vingar.

Dialogando com seus extremos,

desacelerou o passo e reconheceu tardiamente suas fragilidades muitas. A poeira mágica que dava brilho as suas descobertas transformava-se agora no velho pó que há anos vivia debaixo do tapete. A vida é perspicaz e te esbofeteia a cara com suas ironias! E se viu novamente naquele endereço que um dia lhe ensinara o significado da palavra casa. Memórias surgiam de distantes locais em si e brincavam de ciranda em sua frente. Era como se lhe tivessem aberto a caixa de pandora sem nem lhe dar boa sorte antes. O velho o novo e o esquecido pediam-lhe atenção. Se ainda se movesse usando da cegueira dura do dia a dia atribulado, passaria por isso agilmente apenas tratando de endurecer um pouquinho mais aquele ser já endurecido. Saudosista da velha armadura, via-se agora nadando nua no mar de intuições e sensações que não lhe eram habituais. Estava num mar revolto dentro do seu velho habitat e não podia recorrer a velhas soluções, simplesmente porque elas já não lhe serviam. Deu-se a oportunidade de recomeçar e pagava o preço. Vislumbrava-se leve, e para isso lutava para não arrastar o peso morto daquele eu rígido e agonizante. A sobrevivência há de deixar de ser uma luta, esperançava-se! Sentia que lentamente a poeira ia baixando. Por sorte ser urgente não lhe era mais uma (auto) imposição.

A vida é também feita de brisas,

e agora sentia estas brisas por mais sutis que fossem. Agora sentia o gosto da comida. Agora sentia o cheiro dos acontecimentos. Agora deliciava-se na falta de pressa. Entendia melhor a lentidão da vida! Compadecia da pressa que enxergava em olhos ressacados e vozes ofegantes. Reconhecia-se neles e naquela pressa de preencher o vazio que não se preenche nunca muito menos à força. Correm para onde? Talvez devesse acelerar, pensava, para pegar nestas mãos trêmulas e juntos acertarem o passo. Sim, confiava em parcerias. Seu passado de incredulidade não lhe condenara. Enchia o coração de esperança e aliviava a mente ensimesmada. Acreditava na mudança do outro mais do que era capaz de acreditar em si. E ao dar-se conta do óbvio, sorriu.

 

Uma boa trilha seria Here de Alessia Cara

 

Visualizando e Respondendo. Na contramão do mundo.

Eu quero visualizar e responder.

Eu quero falar e ser ouvida.

Eu quero ouvir e retornar.

Eu tento pensar nestas frases e encontrar o que há de tão démodé nelas. Eu tento entender como é que algo tão primário, básico, pode ter virado motivo de memes constantes nas redes sociais. Eu quero dar risada junto só que eu não consigo. Não. Mentira! Eu consigo. Eu consigo dar risada junto porque eu não sou uma antissocial, porque alguns memes são mesmo engraçados, mas sobretudo porque eu não posso chorar e discorrer toda hora sobre a profunda e crescente tristeza que eu sinto ao observar a ridicularização do respeito ao próximo. Do mínimo respeito ao próximo.

Só que hoje eu resolvi escrever sobre isso.

Esses dias eu vi um post quem mostrava uma garota com o celular na mão e a frase “o namorado acabou o relacionamento de quatro anos pelo Whatsapp”, destacando como as pessoas hoje em dia evitam o contato e tentam resolver situações difíceis de forma impessoal e cômoda. Tenho certeza (e quero acreditar!) que a maioria das pessoas concorda que dispensar alguém assim é horrível. Havia uma relação e era longa. Mas por que as demais pessoas com as quais convivemos, do dia a dia, que entram e às vezes passam pouco tempo ou significam pouco na nossa caminhada, na nossa rotina atribulada, não merecem também serem ouvidas e respondidas? Não são todos pessoas? Se podemos ler, porque não podemos também responder? Não quero entrar no mérito da velocidade da resposta. É um bom tema quando tudo é tão rápido e volúvel como nos dias atuais. Quero apenas me ater a isso de ignorar o outro – e pior: se gabar de ser o fodão ou a fodona que faz isso. Gente. Pelo tanto de memes e coisas que escuto (e vejo com meus próprios olhos), isso virou moda. É a tendência: enchi o saco, vejo que tô por cima, acho a pessoa chata? Pronto. É visualizar e não responder na lata. É a geração e  comportamento Tinder ditando a decadência da relação banal. Não basta mais ser superficial, tem que ser babaca.

Bom. Eu sigo na contramão. Eu quero visualizar e responder. Nem que seja para dizer não, tchau, chega. Eu quero ser visualizada e respondida. Nem que seja para receber um não, tchau, chega. Eu quero saber que as pessoas vão ter alguma clareza do que eu penso e sinto. E eu quero ter alguma clareza do que as pessoas pensam e sentem. Eu não quero manipular ninguém com meu silêncio, por ele não ser claramente a continuação de algo que foi visualizado, pensado, sentido e respondido por mim, mas sim reticências a serem interpretadas e quiçá distorcidas posteriormente pela minha própria conveniência ou necessidade. Não quero isso para ninguém nem para mim. Eu quero sempre dar um passo atrás antes de deixar me levar por qualquer sentimento mesquinho ou passageiro (ou quem sabe infantil) e considerar minimamente o outro. E quero que me considerem. Eu não quero deixar as pessoas esperando uma resposta fazendo de conta que o silêncio é sempre óbvio e esclarecedor, sendo que ele não é. Eu não quero que me façam sentir mal, nem perder tempo analisando (e indo quem sabe pelo caminho errado), na tentativa de entender a ausência de resposta. Eu não quero deixar ninguém perdido propositalmente. E não quero que me deixem.

Claro que vão deixar. Hoje em dia este é o caminho que as relações sobretudo afetivas estão tomando. Tudo bem. Eu ficarei confusa ou triste ou até mesmo com raiva. E vai passar porque a vida segue. Mas isso não muda em nada o fato de eu querer me manter no contra-fluxo. Eu continuarei visualizando e respondendo. Lembrando que há um ser humano do outro lado. E considerando que as pessoas são de carne e osso – e emoções. Eu ainda vou, sempre e em primeiro lugar, acreditar que as pessoas são sinceras e se importam com o próximo. Até que elas me provem o contrário – mesmo que seja com um “visualizado e não respondido”.