[insoniedades]

talvez uma emoção que não achou a porta de saída e fica andando em círculos com as mãos no bolso.

ou uma decisão que não tem coragem de acontecer e deixa a covardia tomar lhe a energia emprestada para fumar um cigarro.

ou o espaço de tempo que leva para catalogar um sentimento que não encontrou gaveta no armário abarrotado de velhos padrões.

quem sabe a dor daquele não que não aceita não ser sim e insiste, batendo o pé e se jogando no chão como criança birrenta.

pode ser o coração cansado de estímulos externos vazios, corações vazios, intenções vazias, que lhe arrancam todos da carne em doses homeopáticas. sem dó.

ou ela é o que é. o sono que dorme de conchincha sem deixar que você respire. e durma também.

 

Trilha sonora para esta insônia pode ser Puzzle Mutenson, By Night

Índia. Brasil. Islândia. O sabático ao som de Ben Howard.

E foi na Índia que dentre as tantas descobertas incríveis Ben Howard me foi apresentado. Dentre as tantas coisas vividas na época que Ben Howard não saía daquele iPad de capa vermelha, descobri o que era sentir a liberdade na vida cotidiana que eu não me lembro de ter vivido alguma outra vez. A vida fluindo no dia após dia sem regras, metas, prazos e projetos. Ao som de Ben Howard eu viajei longe e lentamente. Eu sorri um sorriso solto, largo. Era tudo leve, novo, apaixonante e tinha gosto de chai com cinnamon roll. Não existiam grandes planos e a vida me conduzia ao seu modo e ritmo – que naquele momento casavam perfeitamente com as melodias deste músico inglês que eu adoro.

A partir da aparição de Ben Howard vieram experiências e mais experiências que nem a minha relação já próxima com a liberdade podiam me ajudar a prever. Pode muito bem ter sido ao som de Keep Your Head Up que eu decidi perder a passagem de volta e seguir algo muito maior que pulsava dentro de mim.

Tailândia. Camboja. Vietnam. Laos. Cingapura. Indonésia. Malásia. África do Sul.

E neste último país, também ao som de Ben Howard, eu descobri que a ideia de liberdade experimentada ia começar a ruir – coisa que obviamente só hoje sei colocar em palavras. Ali eu ia mais tarde entender que a energia que envolve a vida cotidiana e comum na cidade a qual somos ligados originalmente exerce uma pressão enorme. Que ela nos impulsiona como que se de alguma forma quisesse nos fazer voltar a sermos o que éramos – não sem muita dor. Ali eu ia só agora entender o quão intuitiva posso (e podemos todos) ser e o quanto esta conexão é importante para uma vida mais leve. Mas naquele momento eu não via isso e sofri muito vendo meus queridos lutando, totalmente sem jeito, para não sucumbir ao status quo das vidas e relações que justo os haviam impulsionado da África para a estrada. As estradas sujas e incríveis da Índia.

E decepcionada comigo mesma e com eles eu fugi de ver viver e sentir aquilo. Pode muito bem ter sido ouvindo The Fear que eu, com o coração em frangalhos, voltei para o caos de Bangkok, onde numa pousada escondida na rua Rambuttri eu conseguiria fragilmente me reencontrar. Ao lado da Khao San Road, a rua mais turística de noitadas da Tailândia, num quarto de uma cama pequena, ventilador de teto e janela para o corredor, eu ia reencontrar o sentido para seguir minha jornada – tão linda! Ali com Ben Howard passei duros mas importantes momentos tentando entender o que havia acontecido com toda a ideologia sonhada, compartilhada e aspirada nas montanhas de Manali, na Índia. Por que ralo tinham descido todas as infindáveis conversas e os documentários sobre física quântica e mindfullness que havíamos assistido comendo momos, cinnamon rolls e bebendo chai. Em que parte de suas mentes o amor sereno a comunidade autossuficiente e a liberdade genuína tinham ido parar. Eu ainda ansiava por mais e não podia nem iria parar. Era setembro. Eu não tinha a menor ideia mas eu ainda iria viajar por mais de 3 meses, dividindo o gosto meio amargo do retorno com a pureza do ar nas florestas do norte da Tailândia, com a comida extraordinária da Malásia e com meu incurável encantamento pelas paisagens paradisíacas da Indonésia – pela segunda vez. Ben Howard parou de tocar. A vida voltou a sorrir. A vida sorriu tanto mais e melhor dentro de mim, ao ponto de eu declarar em Flores que seria para sempre feliz e que nada nem ninguém nem eu mesma iria impedir. Eu fui ingênua e a ingenuidade é de uma beleza irreparável. E como se resgata estes momentos de ingenuidades que vão ficando pelo caminho?

É agosto. A vida cotidiana de hoje tem a cara da rua Trajano e me propõe encontros que uns anos atrás seriam muito improváveis. Num destes, Ben Howard voltou. E desta imprevisibilidade a Islândia (!) surgiu no meu mapa interior junto com músicas lindas que vão muito além da Björk. Agora estou aqui ouvindo música islandesa mas pensando em Ben Howard. E na Índia. Porque com a volta de Ben Howard e com a chegada de Múm eu revivi padrões antigos que vinham sendo revisitados ao som de Drexler. Desde que eu voltei muitas coisas em mim tentam voltar também, pois devem se sentir em casa aqui em Curitiba. E com isso entendi mais um pouco a grandeza do movimento que fiz com meu ano fora. Me senti foda e depois pequena, extremamente frágil. Vi que a força externa é massiva e que as sementes que plantamos não vingam na hora ou do jeito que esperamos, mas quando têm que vingar. E vi que quase ninguém entende isso e nem mesmo quer saber o que isso significa. Vi que os padrões internos que lutamos contra se escondem nas frestas dos sonhos e ficam espreitando o clima para poderem aparecer. E então me solidarizei com meus ‘quase família’ que sucumbiam aos seus velhos padrões sul-africanos. Me solidarizei com aquele coração partido e perdido que partia um coração já partido. E depois de quase um ano ouvi Cloud Nine novamente. Encontrei a beleza nas nossas dores agora compartilhadas. E nos velhos e novos desencontros que geram encontros, que geram desencontros de novo. Como saber quando é um encontro, se às vezes o que ele traz é você se desencontrando de si mesmo?

Mas é agosto e fez uns 20 dias de verão em Curitiba. Em Curitiba! Que lição tirar de um quase milagre destes senão renovar as esperanças? Esperanças nos encontros e nos desencontros da vida. Na imprevisibilidade e sua beleza. Desencontros são tão importantes quanto encontros para a nossa caminhada. Soltemos do controle ilusório que insistimos em agarrar! Cedo ou tarde a lição sempre chega com a trilha sonora que nos faz ter certeza que ela chegou. Preste atenção.

 

Trilha sonora – Múm em Green Grass of Tunnel

 

Ou ainda – Ben Howard (claro!) em Under the same sun