Ensaio sobre uma busca (2)

Devia estar fazendo mais de cinco anos que a olhos vistos tudo começou a se mexer e ruir e modificar. Antes, sinais. Esboços entre piscadas rápidas daqueles olhos adormecidos. Talvez o início tenha sido muito antes, com sutileza tamanha que no modo grosseiro de encarar a vida jamais se observa. Mas o movimento certamente já devia estar ali. Pulsando.

Saltou para o desconhecido que nunca esteve em outro lugar. O desconhecido que nos habita.

Um dia o ser mais enraizado de si cansou e abriu espaço. Ajoelhou, desistiu. Lutara por tanto tempo e ainda sim, sentia-se miserável e incapaz de dar mais um único passo adiante. Começara a entender que a vida não se leva a golpes. Não sem pagar um alto preço que já não podia. Era como se estivesse vivendo para pagar um agiota.Jamais saldaria a dívida! Jogou a toalha.

Entregou o comando na esperança de se renovar.

Somos todos habitados por diversas versões que coexistem hora em paz hora em conflito.Uma versão livre e corajosa se prontificou a assumir aquele titanic. Coragem deve ser uma característica comum entre todas as minhas versões, acreditava. Tardiamente ainda ia descobrir que dava abrigo também a covardes.

Com alguma coragem a vida pode ser incrível.

E com coragem, muita, foi para bem longe, e quanto mais se afastava mais a palavra sabedoria ia tomando corpo e se fazendo clara. Finalmente a rígida busca pelo conhecimento lógico e formal ia perdendo toda a graça que de fato nunca teve. Entendia sim sua importância no mundo corriqueiro, mas o processo intenso de ver aquelas experiências inimagináveis se tornarem parte de si era incomparável. Via-se invadindo por elas pela pele e poros, e sua mente atônita em vão tentava processar aquilo tudo. Já possuía e agora ainda mais, a sede de dar um sentido maior a seu caminhar. Algo que se lhe tomassem tudo, ainda sim faria a vida ter valido a pena. Perdia-se sempre nesta coisa de valor e sentido, mas havia na sua busca a sinceridade de uma criança que sem querer acusa a si mesma. E livre de uma liberdade impensada teve a certeza de que não era vivendo no mundo cotidiano e doentio que conseguiria isso. Certeza esta que mais tarde pagaria o preço por ter decretado. Iria voltar atrás em mais esta conclusão. O sentido da vida não pertence a este mundo enlouquecido, entendeu, mas é aqui no meio do caos que deve vingar.

Dialogando com seus extremos,

desacelerou o passo e reconheceu tardiamente suas fragilidades muitas. A poeira mágica que dava brilho as suas descobertas transformava-se agora no velho pó que há anos vivia debaixo do tapete. A vida é perspicaz e te esbofeteia a cara com suas ironias! E se viu novamente naquele endereço que um dia lhe ensinara o significado da palavra casa. Memórias surgiam de distantes locais em si e brincavam de ciranda em sua frente. Era como se lhe tivessem aberto a caixa de pandora sem nem lhe dar boa sorte antes. O velho o novo e o esquecido pediam-lhe atenção. Se ainda se movesse usando da cegueira dura do dia a dia atribulado, passaria por isso agilmente apenas tratando de endurecer um pouquinho mais aquele ser já endurecido. Saudosista da velha armadura, via-se agora nadando nua no mar de intuições e sensações que não lhe eram habituais. Estava num mar revolto dentro do seu velho habitat e não podia recorrer a velhas soluções, simplesmente porque elas já não lhe serviam. Deu-se a oportunidade de recomeçar e pagava o preço. Vislumbrava-se leve, e para isso lutava para não arrastar o peso morto daquele eu rígido e agonizante. A sobrevivência há de deixar de ser uma luta, esperançava-se! Sentia que lentamente a poeira ia baixando. Por sorte ser urgente não lhe era mais uma (auto) imposição.

A vida é também feita de brisas,

e agora sentia estas brisas por mais sutis que fossem. Agora sentia o gosto da comida. Agora sentia o cheiro dos acontecimentos. Agora deliciava-se na falta de pressa. Entendia melhor a lentidão da vida! Compadecia da pressa que enxergava em olhos ressacados e vozes ofegantes. Reconhecia-se neles e naquela pressa de preencher o vazio que não se preenche nunca muito menos à força. Correm para onde? Talvez devesse acelerar, pensava, para pegar nestas mãos trêmulas e juntos acertarem o passo. Sim, confiava em parcerias. Seu passado de incredulidade não lhe condenara. Enchia o coração de esperança e aliviava a mente ensimesmada. Acreditava na mudança do outro mais do que era capaz de acreditar em si. E ao dar-se conta do óbvio, sorriu.

 

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Não tem almoço grátis. Nem liberdade.

Ando tateando o reino dos desejos de um outro lugar que me faz inevitavelmente refletir sobre a liberdade. Ser livre é decidir. Decidir é abdicar de algo. E exercer o livre arbítrio nos exige navegar em mares incertos sob a única certeza de que não se tem certeza de nada.

A maioria das pessoas guarda em si o desejo de ser livre em algum nível. Assim gosto de acreditar. Gosto de acreditar que todos nós, sob algum aspecto da nossa existência, estamos sempre flertando com a possibilidade de algo diferente. De mudar. E imaginar-se livre, imaginar-se num outro lugar, numa outra condição é free! Só que quando trazemos o sonho para a realidade atual de nossas vidas e de longe espiamos o quanto vai custar a mudança – nem todos estamos dispostos a pagar, por mais tentador que seja.

Das alternativas que temos, uma é encaixar-se da melhor forma possível dentro dos moldes existentes da família ou sociedade a qual pertencemos. Com algum desconforto ocasional, elegemos deixar para lá essa coisa de ser livre para fazer escolhas pessoais que rompam com o status quo e tocamos a vida. Não posso negar que às vezes vale a pena o incômodo de não se ser por completo frente ao conforto que o pertencimento nos dá.

Por outro lado, podemos dar nosso grito de independência e em algum nível arriscar romper com os padrões e seguir por um caminho de incertezas e descobrimentos. Navegar por mares que sua família não navegou, que seus amigos não navegaram, sem a menor garantia de onde isso vai te levar. Ganha-se anos luz de experiência a custo de não pertencer a nada nem ninguém que você conhecia antes. E como quase todo mundo que não-pertenceu sabe: não pertencer dói.

No final das contas é isso: não tem almoço grátis. (melhor jargão)

O feijão com arroz é ótimo. O Nasi Goreng também.

Se tivermos consciência do que se elege. Quando se elege. Do porque se elege. A liberdade pessoal está garantida. Isso é simples? NEM UM POUCO. É muito mais fácil ser kamikaze e seguir o padrão vigente sem pensar muito. Ou ser kamikaze no outro extremo e ficar refém de impulsos e desejos.

Exercer a liberdade de escolhas conscientes e sustentáveis dá um trabalho enorme! E nesse aspecto eu vejo que a mulher que leu tarot para mim num final de ano de adolescente em Telêmaco Borba estava certa: Menina, você vai trabalhar muito na vida. E aqui estou: por pura escolha, cada vez mais consciente, aqui estou: exercendo a liberdade de trabalhar duro para entender do que se trata tudo isso de ser quem se é – de modo consciente, de modo duradouro.

Com carinho,

Maria.

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